Pacientes desse transtorno devem ser encaminhados ao psicólogo
JONATHAS EMMANUEL
Quem chega próximo à residência de sr. Humberto (nome fictício) vê de longe um amontoado de restos de materiais de vários gêneros empilhados da garagem até o quintal, tomando todo o espaço. Para ele é apenas uma mania, mas os médicos alertam para esse tipo de comportamento. A TRIBUNA DO BRASIL visitou duas famílias que acumulam entulho dentro de casa. A reportagem passou um fim de semana em uma delas para observar de perto o drama.
O sr. Humberto esbanja saúde. Além de ser pintor, marceneiro e bombeiro hidráulico, disse que se aposentou como topógrafo. Apesar de ter 70 anos, ainda trabalha. Ele tem também um hábito antigo: há quatro décadas coleciona lixo.
Mesmo envergonhado, ele abre a porta da sua residência para entrarmos. “Pode vir, só não repare a bagunça”, convida. Do portão para dentro há muita sujeira acumulada. A entrada principal, que dá para a sala de visita, estava fechada. Nos corredores que dão acesso à casa há pilhas de cacarecos, latas, garrafas, cadeiras sem assento, bacia quebrada, pneus carecas, impressoras com defeito, colchões, até lixo orgânico.
há 40 anos
Algumas dessas velharias estão há 40 anos no mesmo lugar. Segundo ele, a maioria do material foi recolhida em lotes baldios. “Pego essas coisas para arrumar e depois vender, mas não consigo, e deixo por aí”, justificou. O comportamento de sr. Humberto incomoda muita gente. “Já me pediram para tirar esses trens (lixo) daqui, os moradores ao lado reclamam, não tenho tempo, mas dou um jeitinho”, sorri.
Um dos vizinhos, que não quis se identificar, disse que a fiscalização foi até o local. “Vieram alguns agentes de fiscalização, pediram para limpar a casa, mas até agora nada, ninguém veio”, disse. A esposa de sr. Humberto, de 60 anos, que sofre com problemas respiratórios, não estava no local para falar com o repórter. “Ela reclama muito porque eu junto os meus materiais de trabalho dentro de casa. Até por conta de ela sofrer de asma, mas é o jeito, vai levando”, disse o sr. Humberto.
O drama de quem não consegue jogar nada
A primeira família que nos recebeu mora em Ceilândia, e nos recebeu com a condição de não ser identificada. Chegamos numa sexta-feira à noite e saímos no domingo, no fim do dia. A história de João Batista, 56 anos, esbarra no mesmo drama do sr. Humberto. Desde jovem ele coleciona lixo. O muro da casa de três andares não permite que os de fora vejam a grande quantidade de entulho no quintal. Enquanto o marido tem mania de juntar sujeira, sua esposa, dona Marta (nome fictício), 47 anos, mantém a parte de dentro da casa limpa.
Sem empregada doméstica, ela dá conta de arrumar os 15 cômodos. Enquanto lava a louça do almoço, horário em que João Batista não está, ela aproveita para lamentar a bagunça. “Ele tem esse problema desde quando casamos, faz 13 anos. Pensa num homem custoso! Já falei, pedi com carinho, com amor, e nada. Misericórdia!”
João Batista trabalha como mecânico, inclusive aos feriados. Acompanhamos algumas idas dele à rua. Com um carro velho de duas portas percorremos vários pontos da cidade para fazer compra. Durante o percurso, ele parou três vezes em terrenos baldios para pegar lixo. “Cabe aí dentro no banco de trás?” - pergunta. O carro estava cheio de alimentos. “Levanta um pouco o banco para eu colocar este espelho (quebrado) e este banco (sem assento). Vou arrumar todos eles, você vai ver.”
Quando voltamos, quem estava à espera dele era sua esposa, com uma raiva imensa. A situação piorou quando o espelho caiu e terminou de quebrar. “Não acredito! Mais lixo? Eu não aguento, você me passa vergonha, olha que coisa horrível!”, grita Marta. João Batista vira uma fera e começa a xingar. Este cenário se repetiu diversas vezes durante a estada.
doença mental
Segundo o professor de psiquiatria da Universidade de Brasília (UnB), Raphael Boechat, o hábito de colecionar lixo é um sintoma que faz parte de um quadro de doenças da mente. Pode ser escrizonefia (delírio) ou transtorno obsessivo compulsivo (TOC), quando a pessoa tem mania repetitiva sem controle.
“Não existe um motivo para desenvolver essá doença. Quem estiver assim deve passar por uma avaliação neurológica. A partir daí, pedimos exames de ressonância e tumografia para verificar o que há de errado”, explica o psiquiatra. De acordo com ele a propensão maior de ambas as doença é entre jovens e adultos. O tratamento é feito à base de remédios específicos e com psicoterapia.
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