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08/03/2010
Pedestres versus automóveis
Lucio Bernardo Jr.

Congestionamentos, estacionamentos sempre lotados, área pública ocupada...

 

Cleber Augusto

 

Automóveis versus pedestres, este é o cenário das ruas de Brasília, onde quem anda a pé disputa cada vez mais espaço com automóveis. Com o expressivo crescimento da frota de veículos - foram mais de 100 mil colocados nas ruas no ano passado - surgem problemas urbanos como falta de vagas e estacionamentos, ocupação de áreas públicas, congestionamentos e poluição.
No centro de Brasília, por exemplo, é comum ver pedestres transitando no meio dos carros e se desviando dos veículos, estacionados em fila dupla em regiões como o Setor Comercial Sul (SCS), Setor Bancário, Setor de Rádio e Televisão, Setor Hospitalar, Setor Hoteleiro, Setor de Autarquias, área da Esplanada dos Ministérios, além do interior de quadras residenciais e comerciais do Plano Piloto.
“É complicado andar no meio de tantos carros; deveriam criar mais estacionamentos, melhorar o transporte público e quem sabe implantar o regime de rodízio de automóveis”, sugere o comerciante Manoel Silva, 45 anos, morador da QNA 5, Taguatinga.
Em outras regiões do Distrito Federal, como no centro de Taguatinga, o problema é também cada vez mais frequente. Na Avenida das Palmeiras, uma das mais movimentadas da cidade, carros ocupam o canteiro central da via e transformam o espaço público em estacionamento, dificultando o trânsito de pedestres pelo local em horários de pico.
“Há muita dificuldade em caminhar em algumas regiões de Brasília, principalmente no centro da cidade e aqui no centro de Taguatinga. Muitas pessoas acabam caminhando pelo meio da rua, por falta de calçadas, e Brasília chega a seus 50 anos com problemas muito sérios, apesar de ser uma cidade planejada”, observa o analista de sistemas Cássio Ribeiro, 40 anos.
Segundo ele, o alto poder aquisitivo e os baixos índices de desemprego são fatores que contribuem para o aumento do número de veículos circulando pelas ruas. “Dizem que em Brasília as pessoas têm um poder aquisitivo muito alto e podem comprar carros, mas com isso surgem também os problemas urbanos. Além do mais, as coisas não são bem planejadas. O metrô funciona mal, o sistema de ônibus funciona mal, e por isso o número de carros nas ruas cresce constantemente”, opina Ribeiro, citando o exemplo da cidade de Águas Claras, para exemplificar a falta de planejamento.
“Só para se ter noção, Taguatinga tem 52 anos de existência, e Águas Claras, que é uma cidade bem mais nova, já tem o trânsito bem pior do que o daqui. Os recursos existem, mas falta planejamento, por isso acho que a cidade de Brasília precisa ser repensada”, destacou Cássio.

ONDE ESTACIONAR?
O motorista Hélis Aranha, 50 anos, representante de vendas, foi multado no ano passado por estacionar na calçada no centro da Avenida das Palmeiras, em Taguatinga. Mesmo assim, o motorista insiste em parar o carro no local e argumenta não haver outra alternativa para quem circula de carro pela região. “É muito difícil encontrar vagas aqui no centro de Taguatinga, portanto a solução é estacionar o carro na calçada, mesmo sujeito a multa.”
O motorista argumenta que o crescimento da frota de veículos é inevitável e com o aumento do poder aquisitivo da população muitas pessoas compram carros. “Com isso os carros mais antigos acabam parando nas mãos de pessoas que possuem menos condição financeira, e fora isso existem os jovens que estão completando 18 anos, que certamente comprarão carros novos. Portanto acho que deveriam criar mais estacionamentos, e esta área aqui poderia se transformar em um deles”, disse Aranha, destacando que a implementação do regime de rodízio seria uma boa alternativa.
“É uma possível solução, mas também é uma questão complicada. Muitas vezes não há compatibilidade de horários, local, e todo mundo têm seus problemas diários para resolver”, disse Hélis.
Já o motorista Sérgio do Vale, 38 anos, analista de sistemas e economista, acredita que falta em Brasília um departamento de engenharia de tráfego mais eficiente e presente. “Há muita dificuldade em se encontrar vagas hoje, principalmente no centro da cidade. Não existe um departamento de engenharia de tráfico que esteja atuando na rua, observando o que está acontecendo, e na verdade é disso que precisamos. Não há necessidade de se realizar pesquisas para comprovar esse problema, precisamos dessas pessoas nas ruas”, disse Vale, citando algumas deficiências existentes no setor.
“Existem faixas de pedestre instaladas no lugar de passarelas, semáforos mal posicionados, situados no meio de vias públicas movimentadas, ausência de acostamentos, e com todos esses problemas fica difícil transitar. Tudo isso, aliado ao crescimento diário da frota de veículos, ocasiona problemas como os engarrafamentos e a falta de estacionamentos. Mesmo assim, algumas medidas adotadas pelo governo, como a construção da Linha Verde e melhoria do sistema de transporte público, tornam o trânsito mais humanizado e certamente contribuirão para a redução desses problemas”, acredita.

PROJETOS ETERNOS
A Administração Regional de Taguatinga informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que existe um projeto para transformação do canteiro central da Avenida das Palmeiras em estacionamento para veículos. O projeto deve ser concluído até o fim do ano. Outro projeto que está em análise é a construção de um túnel viário que cortará o centro da cidade, fazendo a ligação entre o Plano Piloto e cidades como Ceilândia e Samambaia. “Esse projeto está inserido em uma das propostas do programa Brasília Integrada, assim como a ampliação das avenidas Samdu Norte e Sul, e das avenidas Comercial Norte e Sul, com o objetivo de amenizar o fluxo de veículos no centro da cidade e reduzir o número de carros que circulam em Taguatinga”, informou a assessoria de imprensa da administração da cidade.
Já a criação de estacionamentos subterrâneos com capacidade para 20 mil veículos na área central de Brasília, projeto anunciado pela Secretaria de Transportes no dia 12 de junho de 2009, não saiu do papel. O estudo de mapeamento do subsolo no centro da cidade, intitulado Cartografia Geotécnica para Obras Subterrâneas, foi realizado pela professora Paola Cristina Alves, mestre em geotécnica da Universidade de Brasília (UnB), e atestava a possibilidade de realização das obras sem o comprometimento do projeto original de Brasília.
Na época, o secretário de Transportes, Alberto Fraga, informou que a secretaria aguardava apenas o edital do projeto, feito pela Codeplan, e que as obras seriam realizadas por meio de parceria público privada com investimentos de R$ 600 milhões.

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